Você consegue imaginar passar horas, dias, meses e anos aperfeiçoando uma habilidade e ainda assim ninguém considerar aquilo uma profissão ou muito menos arte? Foi exatamente isso que aconteceu com muitas mulheres ao longo da história. As mulheres sempre trabalharam. Tecelagem, bordado, costura, renda, tudo isso exige conhecimento, domínio técnico, tempo e criatividade. Em muitas sociedades, essas práticas eram fundamentais tanto para a economia quanto para a transmissão cultural. Só que grande parte dessa produção acontece dentro da esfera doméstica. E quando a história da arte começou a organizar suas hierarquias, o lugar onde determinada obra era produzida acabou tendo mais peso. A partir do Renascimento, foi-se consolidando uma ideia específica de artista, o gênio individual ligado à concepção intelectual e à autoria. E olha que interessante quem acabou ocupando cada lugar. A pintura, a escultura e a arquitetura eram campos predominantemente masculinos, enquanto o bordado, costura e outras práticas domésticas foram associadas às mulheres. Linda Nochlin questionou isso lá em 1971, em seu livro: Porque é que não houve grandes artistas mulheres? Ela fala sobre a importância de refletirmos quais eram as condições necessárias para alguém se tornar um grande artista. E quem tinha acesso a elas. Durante séculos, as mulheres tiveram acesso limitado às academias, às oficinas, às redes de patronagem, aos espaços de exposição. Ao mesmo tempo, havia uma forma de produção para a qual as mulheres eram muito bem-vindas. Aquela que acontecia em casa. Rozsica Parker mostra em seu livro: Um ponto subversivo, como o bordado foi usado na educação feminina para ensinar paciência, disciplina, delicadeza e recato. Com uma contradição importante, né? Mulheres eram incentivadas a desenvolver habilidades extremamente sofisticadas, mas essas mesmas habilidades ajudavam a mantê-las dentro de um lugar social considerado apropriado para elas. Essa hierarquia era determinada por quem estava nos lugares de poder. Uma mulher podia produzir algo extremamente complexo e aquilo continuaria sendo chamado de doméstico. Um homem podia produzir com as suas mãos e aquela atividade podia ser levada ao Estatuto da Arte. São muitos os casos de apagamento onde as obras sobreviveram, mas os nomes das mulheres que criaram essas obras desapareceram. Por isso é importante pensar que sobreviver na história depende de alguém decidir o que merece ser lembrado e isso vai muito além da arte. Quem decide o que merece reconhecimento também decide o que recebe espaço e investimento. E legitimidade. E isso também vale para instituições que definem os nossos direitos, as políticas que nos afetam e também as condições em que a gente vai viver. Por isso muito nos afeta quem ocupa espaços de poder, quem escreve as regras e quem decide quais vozes serão ouvidas. A memória não se constrói sozinha e os direitos também não se protegem sozinhos. Então é o seguinte, se mexa também, porque quem a gente escolhe pra ocupar lugares de poder, importa!
— .(Escrito dia 10/09/2026, às 11:57)


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