Eu não sei porque diabos eu fui inventar de mergulhar em mim, tinha que ter um aviso na entrada sabe, algo como cuidado: Águas profundas e sem visibilidade. A superfície era tão confortável, lá em cima eu sabia exatamente qual máscara vestir pro café da manhã, qual o tom de voz usar na reunião do trabalho, como sorrir pra ninguém me fazer perguntas difíceis, na superfície vida é um roteiro muito bem editado, mas aí eu inventei de mergulhar. O primeiro choque é térmico, é o frio de perceber que muita coisa que eu chamava de eu, era apenas o reflexo do que esperavam de mim. E conforme eu fui descendo, a pressão aumenta, o ar fica escasso, o peito aperta, porque a verdade, ela é pesada, ela tem uma densidade que o ego não suporta, é desconfortável, é irritante. Tem dias que eu sinto uma vontade de emergir, de voltar a falar sobre o tempo, de comprar coisas que eu não preciso pra agradar pessoas que eu nem gosto. O problema do mergulho é que depois que os seus olhos se acostumam com a escuridão do abismo, a luz da superfície parece um pouco artificial. Lá embaixo, no meio desse caos, eu comecei a sentir o gosto. No início era amargo, o gosto do arrependimento, das versões de mim que eu deixei morrer pra caber em lugares pequenos. Só que depois o sabor muda, fica denso, complexo. Eu comecei a saborear minha própria solidão, eu comecei a entender esse desconforto que na verdade era o parto de uma soberania que ninguém mais pode me tirar. Existe uma beleza trágica, em se dar conta de que eu sou o oceano inteiro e o naufrágio ao mesmo tempo. É saber que dói, mas liberta. Eu sei o peso da minha própria sombra, e por saber, ela já não me assusta mais. Eu saboreio essa estranha liberdade de não precisar de permissão pra ser inteira, mesmo que essa inteireza seja feita de cacos remendados e abismos. Então sim, porque diabos eu fui inventar isso? Talvez porque eu tenha cansado de bater o pé na areia. Talvez porque no fundo eu sempre soube que só quem se permite se afogar em si mesmo, é que finalmente aprende a respirar de um jeito novo. O mergulho no seu autoconhecimento muitas das vezes é solitário, é escuro, é perturbador, mas meu Deus que gosto viciante tem essa tal verdade.
— .(Escrito dia 16/04/2026, às 17:22).


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