Por 26 anos, vivi entre humanos. Outros marinheiros me disseram que seria perigoso viver sem. E é, mas quando comparo os perigos daqui com os das cidades, me sinto confortável. Com meu bastão de madeira, meço o gelo e estabilizo meus passos. Com o martelo, quebro os icebergs e faço água. Com a voz, afasto outros animais. Com a isca e o anzol, atraio comida. Aqui, caminho sem temer ser perseguida. Durmo sem medo de ter minha casa ou meu corpo invadido. Danço sem medo de ser atacada. Nem fraca, nem forte, pois não há comparação. Corro, brinco, pulo, salto, canto. Não sou excluída por ter útero. Não sou subestimada por ser jovem ou excluída por não ser. Não sou obrigada a sorrir quando não quero, a agradar quem me desagrada. E não preciso ter superpoderes para obter respeito. Se um dia as falas negativas dos outros me doeram, hoje me fazem lembrar das dificuldades do caminho até aqui. Sou minha prova de coragem. E é incrível quanto tempo sobra quando a gente só precisa agradar a si mesma, quando a gente se veste pra ficar aquecida e confortável ao se deslocar e não para ser bonita. Um dia achei normal as roupas femininas serem desenhadas para limitar nossos movimentos, com todo um catálogo de artigos pra controlar nossos gestos. Punha um salto e achava normal que agradar os outros me machucasse. Aos dez anos, me lembro de pensar que eu tinha uma condição genética rara por ser a única mulher que eu conhecia que tinha pelos nas pernas. Nos dias de verão, via mulheres de shorts e biquínis sem pelo algum e ficava sem graça de usar roupas curtas quando eu deveria ser a única menina no mundo que tinha pelos, como os meninos. Não tenho certeza se senti alívio ao descobrir, anos depois, que mesmo as crianças passavam por sessões bimestrais de tortura para removê-los. Logo, os meninos da escola diriam que eu era nojenta e eu desejaria passar pela mesma tortura que elas. Ser mulher é também ter seu corpo julgado antes das suas competências. É ser forte e ser chamada de fraca, se preparar e ser chamada de despreparada, ser inteligente e ser chamada de burra, resistir e ser chamada de frágil, ser lúcida e ser chamada de louca. É ter seu sucesso creditado ao seu pai, seu parceiro, seu colega, seu treinador, à sorte, ao acaso. É descobrir que cada prova feminina de competência é considerada exceção. É ter que fazer seus esforços parecerem sem esforço algum. É ser a única em um ambiente onde poderia ser apenas mais uma. E ouvir que ser única é um elogio. Mas é também pensar que esse lugar está em risco e que você não merece estar lá, porque conhece muitas mulheres ainda melhores que não estão. Ser mulher é escrever livros universais que são considerados livros para mulheres e ler livros escritos por homens, para homens, sobre homens. Esses, sim, universais. É se perguntar se tem o direito de ter o que tem, de estar onde está, porque tantas outras foram privadas antes de você. É ser excluída por causar distração ou pela possibilidade de ter filhos. É saber que só será aceita enquanto for jovem e contestar a biologia, transformando a pia do banheiro num laboratório. É engolir muito sapo e ouvir: "você é uma mulher forte", elogio que valoriza o que você faz pela falta de escolha, quando preferia não precisar ser forte e nem engolir sapos. É pensar que ficar sozinha é a pior coisa do mundo e se privar dos prazeres de ficar só. É lembrar que muitas mulheres abriram caminho pra gente, que não estamos sós, que somos metade do mundo, fazemos milagres e podemos ir muito mais longe do que nós mesmas pensamos. E é manter viva a esperança de que as próximas terão mais caminhos abertos do que nós.
Livro: Bom dia, inverno. Páginas: 91, 92 e 93. Editora Companhia das Letras.
— .(Escrito dia 16/07/2026, às 18:14)


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