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Texto criado ao som de Fresno - Pessoa ♬
Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura. Essa intimidade perfeita com o silêncio. Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado de pequenos absurdos, essa capacidade de rir à toa. Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza de quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser. Resta essa faculdade incoercível de sonhar, de transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade de aceitá-la tal como é, (…) e essa pequenina luz indecifrável a que às vezes os poetas dão o nome de esperança. Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto, esse eterno levantar-se depois de cada queda, essa busca de equilíbrio no fio da navalha, essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo infantil de ter pequenas coragens. - Vinicius De Moraes

Domingo é na maioria das vezes um dia nostálgico pra mim, talvez seja porque me remete almoço na casa da minha Avó quando ela ainda estava entre nós. Fico pensando em como era o nosso ritual, a família em peso comendo a sua galinhada ou o seu famoso frango com pequi, claro que não é só pela comida, mais principalmente era pela companhia, as partilhas e trocas naquele lugar seguro, que pra mim era mais do que um lar, ou uma simples casa, era um ambiente onde eu poderia ser eu mesma, e que eu não sentia medo. Ultimamente essa palavra de quatro letras e duas sílabas (M-E-D-O), tem caminhado bastante comigo, até mais do que deveria. Sinto isso quando eu olho pras rugas da minha mãe, e vejo o quanto ela tem envelhecido e que talvez eu tenha muito poucos anos ao lado dela. Não sei bem explicar qual é a sensação que tem me invadido, mas talvez eu tenha medo de crescer, de olhar pra mim mesma e me dar conta de que essa vida é realmente solitária, que os caminhos que me levam pra parte mais bonita do meu lado humano muitas das vezes vai ser somente comigo mesma. Mesmo estando uma mulher mais segura de si, autoconfiante, eu ainda me sinto perdida às vezes, porque uma coisa não isenta a outra. Eu tenho conversado e olhado pra muitas áreas da minha vida e me perguntado: Será que eu tenho coragem o suficiente pra viver a próxima fase, a próxima etapa? Um exemplo nítido, eu me formei agora dia 06 de julho como engenheira de alimentos, e com esse diploma nas mãos eu sinto um peso/fardo, e não que isso anule as minhas conquistas, eu sei exatamente o que eu almejo pra mim, tudo o que eu tive que abrir mão e os sacrifícios que passei pra chegar onde eu estou hoje, mas eu fico pensando sobre os planos que eu fiz quando esse dia chegasse, todas as aventuras que eu estaria disposta a enfrentar pra buscar o meu crescimento profissional através dessa profissão, e vem tantas indagações na minha mente, e a maior delas é: Será que eu ainda estou disposta e comprometida com sonhos que eu tinha a mais ou menos 6 ou 7 anos atrás? Será que eles ainda coincidem com essa Hellen de 35 anos recém formada? Será que eu ainda quero me jogar no mundo pra ir atrás de planos que foram feitos quando iniciei a faculdade? Outro exemplo também é sobre relacionamentos amorosos, eu já estou solteira há quase três anos, e claro que nesse período eu conheci pessoas, eu explorei os meus sentimentos, mas nada que fosse pra frente. E eu fico me questionando sobre se eu quero mesmo um relacionamento, se isso de fato me faria feliz hoje, se eu tenho maturidade o suficiente pra estar numa relação, se eu não sou exigente demais com alguém que eu gosto verdadeiramente. Porque depois de um término de uma relação de sete anos, eu sentei comigo mesma, e coloquei tudo em pratos limpos, eu expus o meu lado obscuro, as minhas feridas e cicatrizes, falei em voz alta tudo o que eu precisava, e foi uma das conversas mais honestas que eu tive comigo em muitos anos, porque eu também tinha muitas questões mal resolvidas comigo mesma, então eu precisei olhar totalmente pra dentro e se dar conta que eu também fui e sou uma pessoa ruim ás vezes, que eu faço mal sim até mesmo pra quem eu amo, que eu falho e cometo erros em demasia, seja por imaturidade, por não saber sequer lidar com os meus sentimentos, emoções, o meu corpo, a minha sexualidade, a minha ferida de abandono gerada pelo meu pai, o meu excesso de controle gerada pela minha mãe. Fazer esse movimento não é fácil, olhar pra si com essas lentes de autoanalise é doloroso, mas requer coragem, mas eu passei por todo esse processo, todas as desconstruções, e pra mim o autoconhecimento foi algo que me salvou e ainda me salva todos os dias, porque eu fiz as pazes com tantas partes minhas algumas que foram preenchidas, outras que eu sei que não serão, sejam essas partes bonitas, feias, dolorosas, mas são minhas e eu tenho orgulho de cada uma delas, porque é a matéria que eu sou feita, é o que compõem a minha essência. Nos seres humanos a gente vive em constante evolução e transformação, a gente se modifica e se reinventa com frequência, e comigo não é diferente, pelo contrário, pelo menos uma vez no mês eu tenho conversas honestas comigo mesma, pra me certificar de que os meus caminhos eles estão alinhados com a mulher que eu sou hoje! E o mais louco disso tudo, é que a sensação que mais predomina em mim é o medo, porque eu sei a grande mulher foda que eu sou, o meu medo é das responsabilidades ficarem ainda maiores, é o peso da coragem que se precisa ter, o medo de crescer e amadurecer pra ter autonomia de tomar as próprias decisões e as bancar. E por outro lado, eu sei que a sociedade com a gente que é mulher, é injusta demais, e que muitas das vezes a gente tem esses pensamentos pela nossa criação, pelo como o mundo nos trata e vê. Mas se tem uma coisa que eu tenho aprendido nos últimos anos, com a terapia, o meu autismo recém descoberto, é que a profundidade que uma pessoa consegue crescer é proporcional à quantidade de verdades que ela consegue escutar sobre si mesma, sem fugir. Então que a gente tenha pequenas coragens todos os dias, mesmo com o medo, afinal mostrar quem a gente é com honestidade, é uma das maiores delícias da vida.

— .(Escrito dia 19/07/2026, às 14:24)


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