O que mais me atravessou não foi a morte de Henrique. Eu já sabia que ela aconteceria. O que me marcou foi conhecer a vida que existia antes dela. Jeferson Tenório faz questão de mostrar um homem inteiro: Um professor apaixonado por literatura, um pai, um filho, alguém que ama, erra, sente medo, faz planos e tenta encontrar sentido na própria existência. Quando a morte chega, você não perde apenas um personagem. Você sente o peso de tudo o que foi interrompido. Ler esse livro também me fez pensar em como é fácil acreditar que conhecemos o mundo apenas pela realidade que vivemos. A literatura tem uma capacidade rara de romper essa ilusão. Ela não faz com que a gente viva a experiência do outro, mas nos obriga a reconhecer que existem vivências que nunca serão as nossas e que, justamente por isso, precisam ser escutadas. Acho que toda pessoa deveria, em algum momento, ler livros escritos por autores que contam histórias muito diferentes da sua própria. Não para sair da leitura dizendo "Agora eu entendo", porque certas experiências não podem ser apropriadas dessa forma. Mas para ampliar o olhar, questionar certezas e perceber que a nossa visão de mundo é sempre parcial. O Avesso da Pele foi uma dessas leituras pra mim. Daquelas que continuam ecoando muito depois da última página. É um livro que eu gostaria que mais pessoas lessem, principalmente quem acredita que a literatura existe apenas para entreter. Às vezes, ela existe para nos ensinar a olhar melhor.
Imagina que você acorda às seis da manhã pra ir trabalhar. Você sai de casa meio atrasado, pega o ônibus de sempre, passa a manhã, a tarde e à noite dando aula. Só que pela primeira vez em muito tempo, seus alunos finalmente prestam atenção no que você está falando. Você sai da escola feliz. No caminho de casa, você já pensa na próxima aula e em quantos autores você vai poder trazer pra esses adolescentes. Até que uma viatura para do seu lado. Um dos policiais manda você parar. Só que a sua mente ainda está na sala de aula. Você não entende muito bem o que está acontecendo. Segundos depois, você leva um tiro no ombro. Depois outro, outro e outro. Você morre. A notícia que chega pra sua família cabe em uma frase. Um homem morre durante uma abordagem policial. Essa não é uma notícia qualquer. É a cena que abre o livro O Avesso da Pele, de Jefferson Tenório. O livro começa pela morte de Henrique, um professor negro. Mas decide então fazer o caminho contrário. Ao invés de perguntar como ele morreu, pergunta quem era ele antes de morrer. Quem constrói essa resposta é Pedro, seu filho. Henrique não era um herói, também não era perfeito. Era professor, gostava de literatura, errava, amava. Ele existia como qualquer pessoa. Existe um conceito na psicologia chamado desumanização. Quanto menos enxergamos alguém como um indivíduo, com histórias, desejos, contradições, mais fácil se torna justificar ou aceitar a violência contra essa pessoa. Por isso que números dificilmente despertam empatia. Já histórias conseguem devolver aquilo que as estatísticas costumam apagar. E eu acho que é isso que o escritor quis trazer com o título, O Avesso da Pele. O Avesso da Pele não é só a cor, é tudo aquilo que existia por baixo dela. A memória, a infância, o medo. Quando você enxerga alguém apenas pela pele, você nunca vai conseguir enxergar o avesso.
Livro: O Avesso da Pele. Editora Companhia das Letras.
— .(Escrito dia 01/08/2026, às 17:35)


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