Como é possível que a nossa expressão religiosa e espiritual, tenha produzido a imagem de um único pai celestial, que é também o único agente de toda a criação? Como o Deus Pai não tem uma consorte cósmica que seja a mãe criadora? Como Deus, sendo criador, gerador da vida, não é mulher? Devemos nos perguntar na tentativa de compreender nossa história, como foi excluído do processo de criação do mundo, da realidade e da humanidade, o corpo gerador e criador por natureza, cuja magia natural é mais obviamente relacionada a criação e a reprodução da vida que a imagem e semelhança da força criadora, o corpo fêmea. A ausência da Deusa nas narrativas de criação dos povos ocidentais ou pelo menos naquilo que foi editado e nos restou como narrativas, conhecidas e normativas, nos indica questões ainda mais profundas em relação à nossa compreensão de cultura, história e papéis de gênero. Nesse contexto devemos nos perguntar para começo de conversa onde foi parar a antiga deusa, mas também onde foram parar as mulheres de carne e osso na história? Onde estávamos e estamos nós. Pensadoras, artistas, escritoras, cientistas, professoras. Como é possível que tão poucas mulheres tenham sido agentes da história ou será que foram tão poucas assim ou será que fomos forçosamente excluídas e apagadas dessa mesma história. As mulheres, por acaso, existiram na civilização ocidental como potência ou foram apenas vítimas do abuso e da violência dessa mesma civilização? Essas são perguntas importantes que devem ser enfrentadas corajosamente. Se as mulheres existiram como agentes históricos, porque não há conhecemos? Porque não saímos das escolas sabendo que a primeira autoria conhecida da história foi uma mulher acádia e que ela era alta sacerdotisa da deusa Suméria, além de líder espiritual e política da sua comunidade? Porque os poemas de Safo de Lesbos sobreviveram apenas sobre a forma de fragmentos enquanto as obras de Homero e Hesíodo viajaram quase intactas no tempo? Quantas mais, bem como seus nomes e suas obras foram destruídas por completo pela dominação patriarcal, e quantas nem puderam chegar a ver a luz do dia? Sabemos que por muitos motivos as mulheres foram deliberadamente excluídas, apagadas, perseguidas, brutalizadas, silenciadas e assassinadas. Não só as que puderam criar e pensar foram esquecidas, mas quantas outras foram impedidas sequer disso?
A caça às bruxas, um dos eventos que coroaram o fim do medievo e o início da modernidade, não foi um episódio isolado, ainda que muitíssimo significativo. A história da nossa cultura com seus diversos momentos gloriosos também é a história da civilização patriarcal e por conseguinte, da brutalização dos corpos dos outros. No entanto, o outro da história, não é apenas a mulher, é o estrangeiro, o inadequado, o marginalizado: A mulher, o preto, o Cigano, o Latino, a pessoa com deficiência, o indígena, a criança, o judeu, até mesmo o planeta e a lista continua. A cada novo contexto, em cada lugar, o outro da história é selecionado, usado e violentado em prol daqueles que centralizam os poderes e os recursos deste mundo. O patriarcado não é só um sistema ideológico de dominação, também é uma doença. É o transtorno narcisista, enquanto patologia que funciona como uma ferramenta de produção e organização da sociedade e da política. O narcisista falha, enquanto sujeito, em reconhecer que o outro também é sujeito (e o trata apenas e exclusivamente como seu objeto de satisfação). O patriarcado, por sua vez, faz o mesmo em escala sistêmica, é de um narcisismo sem paralelos a arrogância do ideal do homem branco europeu “civilizado” que opera, força, constrange e domina a natureza como se dela fosse o senhor todo-poderoso. Esse uno da história que se comporta como sujeito absoluto, confinando todos esses outros na função de seu objeto/coisa, não é só um símbolo ou ideal doentio, mas é encarnado por pessoas reais que assumem funções na tessitura das nossas sociedades.


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