Foi ele o agente e narrador de que comumente denominamos história. Esse é o sujeito que chama de civilização aquilo que podemos enquadrar como patriarcado, que rejeitou o papel de modo deliberado, em muitos momentos, das mulheres e de todos os outros. Nesse sentido, mulheres humanas reais e suas contrapartes simbólicas, como deusas, bruxas e feiticeiras, foram confinadas ao rebaixamento e a exclusão. Foram capturados e aprisionados a esfera do privado, do doméstico, reduzidas a funções de cuidado, reprodução e manutenção da vida familiar. Pressionadas a perseguir corpos impossÃveis, padrões de beleza e irreais, que exaurem sua saúde, seu tempo e recursos artificialmente belos, uma vez que se afastam das forças mais profundas da vida. É um fato histórico que foram excluÃdas dos séculos, talvez milênios, do cenário polÃtico e cultural da nossa civilização. Forçosamente submetidas ao recato, ao bom comportamento, a utilidade servil, a submissão involuntária, a passividade obrigatória e ao falso pacifismo. Quando conseguem escapar, se por algum motivo se opõem e se recusam a performar, essa suposta feminilidade, são condenadas ao ostracismo afetivo, a solidão, ao isolamento. Deixam de representar o que foram autorizadas a ser: belas princesas presas sozinhas em Torres altas à espera do PrÃncipe, seu senhor e salvador, doces jovens virginais, boas esposas e mães, com frequência, nos contos de fadas, mortas, uma vez que esse ideal de bondade, prestabilidade e beleza é irreal. Belas mulheres plenamente redentoras não podem existir como mulheres reais, apenas como mães mortas, a única maternidade possÃvel é a da Madrasta má. E, assim, reaparecem sob a forma de bruxas más, velhas, feias e narigudas, trata-se aqui de violência etarista e étnico-racista, condenadas a companhia apenas das plantas e dos animais. A solidão da mulher é a punição por sua autonomia, pela idade avançada, etnia ou não normatividade do seu corpo. Ou ainda, sobre a forma de deusas incompreensÃveis, musas idealizadas, patrÃcias perfeitas, feitas para serem cortejadas e amadas por um trovador galante, porém nunca verdadeiramente conhecidas. Nesse sentido, existe como um ideal romântico do olhar do outro é quase não existir.
Sobre as figurações do feminino, no corpo simbólico de deusas, bruxas e feiticeiras, resgataremos histórias que talvez iluminem o nosso caminho, narrativas que nos deem dicas e nos revelem outros modos de vida, outros afetos, outras formas de organização polÃtica e social, outras maneiras de existir neste planeta. Para isso, precisamos compreender e naturalizar informações de que o deus dos homens da civilização dos homens é jovem se comparado a Grande Deusa; que existem muitas outras histórias que podem ser contadas sobre nós mesmas, sobre a natureza humana e seus diversos e possÃveis caminhos. Esse é apenas o inÃcio de uma pesquisa que precisa de inúmeras outras páginas para se fazer manifesta, mas, para recuperarmos a história das mulheres, devemos lembrar que Deus antes de ser transformado em homem, foi mulher. E foi mulher em uma cultura tão antiga que remonta a pré-história, ao desenvolvimento da agricultura, algo que chamamos de matriarcado e paz primitiva. Esse trabalho deve ser feito, ainda que a nossa narrativa normativa se ressinta em reconhecer que, na chamada pré-história, existia uma cultura enormemente vitalizada e sofisticada e que, por muito tempo, em várias regiões do nosso planeta, a Deusa reinou soberana.
— Julia Myara, no livro "Deusas, bruxas e feiticeiras: Histórias de quando Deus era mulher". (Editora Planeta. Páginas 21 a 27). 1ª edição (24 junho 2024).


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