A menina que ficou sem história
Avistei-a sentada na areia, cabelos ao vento, loiros como as searas doiradas dos campos de trigo. Lembrou-me o Principezinho.
Era delicada, de semblante sereno, levemente corada como romãs em início de estação. Brincava na areia, desenhava e construía castelos, sonhando talvez com palácios onde poderia ser princesa. Algo me atraiu nela e fiquei a observá-la de longe.
Aproximou-se uma gaivota, que pata-ante-pata, se colocou junto ao sol que a menina desenhara.
- O teu sol está triste. Porquê? – questionou timidamente a Gaivota Amarela.
A menina levantou o rosto e uma lágrima cinzenta escapou dos seus olhos. Cinzenta era a lágrima porque a tristeza também tem cor.
- A minha mãe é ilustradora e desenhou-me com amor, mas hoje disseram-lhe que eu não sou como as outras meninas! E assim, perdi a minha história. – respondeu-lhe ela, inclinando o rosto para a esquerda, como fazia sempre quando não compreendia as coisas dos adultos. O seu pescoço ficou mais curto, desaparecia assim, sempre que queria que o coração ficasse mais perto do seu pensamento.
- Olha bem para mim- sussurrou a Gaivota Amarela – não vês nada de estranho?
- Não…és muito bonita!
- Sou amarela! Já viste alguma gaivota amarela?
A menina arregalou os olhos e esboçou um largo sorriso.
- Ah! É verdade! Não tinha reparado! Só tinha visto a tua beleza! És amarela como o sol!
- Escolhi ser amarela. Voo sempre junto ao Sol, onde o céu é de todas as cores, da cor que tu quiseres! Azul, como os teus olhos que tão bem combinam com a tua roupa; branco, para nele pintares um arco-íris; laranja para o beberes em fim de tarde; preto, para viverem lá as estrelas…
Os olhos da menina encheram-se de brilho, e naquele momento a vida transformou-se em poesia.
- Tu és especial porque és única. Não há ninguém igual a ti! Foste feita com amor. A tua mãe colocou em ti o que de melhor tem dentro dela. - afirmou a Gaivota Amarela.
- Não percebo…eu ainda sou criança… e não entendo muito bem o mundo dos adultos! – desabafou a menina.
- Vou explicar-te! A tua mãe concedeu-te a imaginação e também a liberdade de seres aquilo que quiseres. Tu não és a menina que perdeu a história! Tu és a menina que vai escrever a tua história. E assim serás livre!
Ouvindo as palavras da Gaivota Amarela, a menina sentiu-se leve e feliz pela primeira vez naquele dia. Sabia agora que era única e que podia voltar para junto da sua mãe, que a esperava ansiosa em criatividade multicolor, para desenhar outras meninas e meninos perfeitos, nos olhos de quem vê com o coração.
Fiquei feliz também, porque sendo eu uma estrela-do-mar com apenas quatro braços, percebi que por todas as areias por onde eu passar, a minha marca será sempre singular e o meu traço irrepetível como a menina que hoje começou a escrever a sua história.
Texto de Virgínia Rodrigues. Ilustração de Olga Neves

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