Eu recebi essa pergunta de forma anônima nos comentários da minha última postagem, e fiquei intrigada com tal indagação. E como resposta, por mais que todo mundo jure que sim, ler não faz de você uma boa pessoa.
E talvez eu tenha parado mais pra refletir sobre isso em agosto de 2025, quando vi umas postagens no TIKTOK, SUBSTACK e TELEGRAM (As únicas redes sociais que eu ainda uso pelos clubes de livros que participo, comunidades literárias), da escritora norte americana Emily Henry, ela divulgando uma rifa pra ajudar as famÃlias em Gaza, e pra minha surpresa, depois de quase dois anos de um genocÃdio documentado e internacionalmente reconhecido, ainda tinham leitores nos comentários da postagem dizendo que iam parar de ler os livros dela por causa disso, ou seja pessoas que leem mas que continuam isentas e alheias a problemas reais.
Isso me lembrou de um trecho de um livro: "Eu me vi recordando de uma tarde no jardim de infância, em que os professores passaram Dumbo, e foi quando percebi pela primeira vez que todas as crianças na sala mesmo os valentões, torciam por Dumbo e contra seus algozes. Riam e vibravam quando Dumbo se dava bem ou quando coisas ruins aconteciam com os inimigos dele. Mas eles são vocês! Pensei comigo. Como não sabiam? Eles não sabiam, era espantoso, uma verdade espantosa. Todos achavam que era Dumbo."
A questão é que se a gente entende a literatura como algo transformador, é porque a gente acredita que a gente tem algo a aprender com os livros que a gente lê. Mas o processo educativo por si só não basta se ele não surtir efeito no educando. O Paulo Freire diz que a educação não transforma o mundo, ela muda as pessoas, e as pessoas transformam o mundo. E eu acredito que o mesmo se aplica a literatura, mas pra que a literatura mude as pessoas, elas têm que estarem dispostas á serem mudadas. Então como é que a gente muda as pessoas de uma comunidade de pessoas que acham que já sabem tudo que precisam saber? Que acreditam que o ato de ler por si só, já garante uma superioridade moral?
Vai ter gente querendo dizer que esse é um questionamento que avança o movimento de Anti-intelectualismo que a gente vê hoje, mas eu discordo. Porque eu acho que a intelectualidade não existe propriamente no ato de ler, mas no ato de racionalizar e dar forma á aquilo que é lido, de pensar criticamente nessa informação absorvida, de internalizar essa informação e de fazer o uso dela com empatia, porque é bom lembrar que sem empatia a inteligência não serve de nada.
Um outro exemplo, são casos de racismo, porque existem muitos, eles são muito recorrentes na bolha literária, ainda mais pra uma comunidade que tem tanto orgulho de ser desconstruÃda. Ficou ainda mais claro que a gente está lidando com um problema de arrogância, que criadores de conteúdo podem passar horas lendo sobre comunidades marginalizadas e ainda assim não ter a humildade pra sentar e escutar pessoas dessas comunidades fazendo reclamações totalmente válidas. Que a gente pode achar que as nossas escolhas de leitura dizem pro nosso público tudo o que eles precisam saber sobre nós, e que é óbvio que alguém que produz conteúdo sobre livros não seria machista, homofóbico, muito menos racista, mas essas coisas não estão relacionadas e a gente precisa parar de achar que elas estão. Na realidade não importa quantos livros você leia, você só vai ser uma boa pessoa se você estiver disposta á agir como uma.
— .(Escrito dia 04/01/2026, às 13:24).


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